A confissão direta ou sugerida de que a entrada em qualquer favela do Rio de janeiro ou São Paulo por equipes para verificar cenas, socorrer famílias e prestar assistência só é possível “após autorização do tráfico”. Autoridades políticas, públicas é demais serviços como a própria imprensa também dependem do fator permissivo.
Isso não é retórica. É um diagnóstico operacional e institucional. Quando agentes do poder público defensores dos direitos, advogados, assistentes sociais, peritos precisam negociar com criminosos para exercer funções que lhes são constitucionalmente atribuídas, perdemos o monopólio da força. Perdemos, em última instância, a própria noção de soberania territorial. O cidadão comum passa de titular de direitos a refém passivo de uma autoridade paralela, regida pela lei do medo.
A inversão que corrói a legitimidade do Estado
Estado de direito não é apenas um ideal abstrato: é um conjunto de capacidades práticas. Entre elas, a capacidade de planejar e executar operações, proteger civis, garantir o acesso à Justiça e responder com velocidade a emergências. Quando uma comunidade vira um enclave em que a polícia só entra com autorização de líderes criminosos, aquilo que está em jogo é muito além de um fracasso operativo é um colapso da autoridade pública.
As consequências são múltiplas e sinistras:
- Normalização do terror: situações excepcionais tornam-se regra. Moradores aprendem a conviver com tiroteios, extorsões e “zonas de não intervenção”.
- Impunidade estrutural: crimes cometidos nesses territórios raramente chegam a um processo judicial robusto; provas se perdem e testemunhas se calam.
- Fragilização da democracia: instituições públicas perdem credibilidade; a sensação de abandono alimenta a desconfiança e o clientelismo.
- Reforço dos grupos armados: o controle territorial permite tráfico, extorsão e recrutamento, criando um ciclo vicioso de violência e poder paralelo.
Por que isso acontece e o que precisa mudar, já
Há um nó que mistura falhas históricas em segurança pública, ausência de políticas sociais estruturantes e limitações técnicas das forças de segurança. Mas isso não pode servir de desculpa para o que estamos vendo: permissividade, hesitação tática e, algumas vezes, conivência institucional.
O Brasil precisa urgentemente de uma política de segurança pública que recupere a autoridade do Estado sem abrir mão dos princípios democráticos e dos direitos humanos. “Mais polícia” não é um mantra vago: é um conjunto de capacidades e procedimentos interdependentes. Eis o que deve ser feito, com urgência técnica e planejamento:
- Comando único e operações integradas — Planejamento conjunto entre polícias civis, militares, forças federais e inteligência. Operações coordenadas reduzem riscos, aumentam eficácia e drenam as possibilidades de “autorização” por criminosos.
- Inteligência e tecnologia — Uso sistemático de dados, vigilância legal, microgeorreferenciamento e análises preditivas para desarticular lideranças e rotas logísticas do crime, não apenas combater sintomas.
- Proteção a testemunhas e apoio às vítimas — Sem segurança para depor, denúncias evaporam. Programas de proteção e canais confidenciais são cruciais.
- Força decisiva, dentro da lei — Investir em operações que retomem o controle territorial com regras claras de enfrentamento, equipagem adequada, treinamento tático e protocolos de minimização de danos colaterais. A lei deve ser aplicada com firmeza, não com “jeitinhos”.
- Reforço do sistema prisional e agilidade judicial — Prisões que não resultam em progressão rápida ou em controle interno do crime são inúteis. É preciso sistema penitenciário que contenha, reeduque e interrompa cadeias de comando criminoso.
- Integração social e políticas públicas — Segurança extrema sem investimento em emprego, educação e reabilitação é obra incompleta. A presença do Estado deve ser também positiva e cotidiana, oferecendo alternativas reais à juventude local.
- Transparência e controle civil — Operações e resultados precisam ser publicamente justificáveis, auditáveis, e submetidos ao escrutínio do judiciário e da sociedade civil. A eficácia não pode ser pretexto para violações.
Os bandidos deveriam temer o Estado não o contrário
A inversão dos polos tem um efeito psicológico devastador: ela ensina que o crime é mais poderoso do que a lei. Um projeto sério de segurança pública precisa reverter essa lição. Não estamos propondo vingança; estamos pedindo retomada de autoridade legítima e eficaz. Quando traficantes passam a temer que suas lideranças sejam identificadas, presas e julgadas; quando seus colaboradores entendem que o ganho ilícito custa vida e liberdade; quando o controle territorial se torna inócuo o recrutamento cai, as rotas fecham, a violência encolhe.
Um Estado que não intimida o crime por dentro é um Estado que se intimida por fora. Reverter essa dinâmica exige coragem política, investimento técnico e uma estratégia de longo prazo que combine repressão qualificada e prevenção estrutural. Só assim a população voltará a ter o direito básico de ir e vir sem negociar com o medo.
Um aviso e uma exigência
A narrativa em que autoridades pedem “licença” a criminosos é inaceitável. Ela deveria provocar não apenas indignação moral, mas uma resposta institucional contundente. O Brasil precisa de segurança pública feroz no sentido técnico: inabalável, profissional, centrada na proteção dos cidadãos e na restauração da autoridade do Estado.
Não se trata de declarar guerra à cidade, mas de garantir que a cidade não precise viver sob um toque de recolher imposto pelo crime. Que os polos sejam novamente os polos: o crime teme a lei; a população confia no Estado; a soberania é exercida em cada rua. Até lá, cada autorização pedida ao tráfico será a prova de que falhamos e de que já é tarde demais para políticas tímidas.
Fonte: Blog Olhar Digital









