As decisões tomadas durante a gestão do ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB) continuam sendo alvo de duras críticas e análises técnicas por parte de especialistas, parlamentares e órgãos de controle.
Passados quase dez anos, os impactos financeiros e institucionais de seu governo ainda recaem diretamente sobre a população do Distrito Federal, em especial sobre aposentados e pensionistas do serviço público, que hoje convivem com incertezas quanto à sustentabilidade do sistema previdenciário.
O caso mais emblemático envolve o Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev), responsável pelo pagamento de benefícios a mais de 75 mil aposentados e pensionistas. Durante a gestão Rollemberg, o instituto que até então apresentava equilíbrio e superávit foi utilizado como fonte emergencial de recursos para cobrir déficits do governo, prática que especialistas classificam como irresponsável e extremamente arriscada.
Saques bilionários e uso do dinheiro dos aposentados
Em 2015, o governo Rollemberg retirou cerca de R$ 1,3 bilhão do caixa do Iprev, sob a justificativa de pagar a folha dos servidores da ativa. No ano seguinte, um novo saque foi realizado, desta vez de R$ 493 milhões, para fechar as contas do GDF. Na prática, o que ocorreu foi o uso direto do dinheiro destinado à aposentadoria dos servidores para resolver problemas imediatos de gestão fiscal.
Essas medidas romperam com o princípio básico da previdência pública: a proteção dos recursos dos contribuintes. A partir daí, o Iprev deixou de ser um fundo estável e passou a conviver com riscos crescentes de desequilíbrio atuarial.
A falsa recomposição e a aposta arriscada
Em 2017, pressionado por críticas e alertas de órgãos de controle, Rollemberg anunciou o que chamou de “recomposição” do caixa do Iprev. A solução apresentada foi a transferência de ações do Banco de Brasília (BRB) e a incorporação de imóveis ao patrimônio do instituto.
À época, o governo avaliou essas ações em R$ 531 milhões, sustentando que o prejuízo estaria sanado. Na prática, porém, a decisão expôs os recursos previdenciários à renda variável, sujeita às oscilações do mercado financeiro. O Iprev passou a ser um dos maiores acionistas do BRB, assumindo riscos que não condizem com a natureza conservadora exigida para fundos de aposentadoria.
Com o passar dos anos, as ações do BRB entraram em trajetória de desvalorização. O episódio desencadeou desconfiança no mercado, sucessivos escândalos e queda no valor dos papéis, ampliando significativamente o prejuízo do Iprev.
Prejuízo real e perda de oportunidade
Atualmente, as ações transferidas ao instituto estão avaliadas em cerca de R$ 406 milhões, o que representa uma perda direta superior a R$ 120 milhões em relação ao valor originalmente anunciado pelo governo Rollemberg. No entanto, especialistas destacam que o dano real é ainda maior.
Caso os recursos tivessem sido aplicados em investimentos conservadores, como títulos atrelados ao CDI, o patrimônio hoje ultrapassaria R$ 1 bilhão. Em números conservadores, o Iprev deixou de ganhar mais de R$ 470 milhões, valor que faria enorme diferença para garantir o pagamento futuro de aposentadorias.
Risco institucional e investigação
O cenário levou o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) a abrir análise sobre o caso, após representações parlamentares. Deputados distritais cobram explicações formais do Iprev e investigam os impactos das decisões tomadas no passado sobre o presente e o futuro do regime previdenciário.
Para parlamentares, as ações adotadas durante o governo Rollemberg configuram gestão temerária, marcada por improviso, transferência de riscos e desrespeito à finalidade dos recursos previdenciários. Embora as apurações sigam em curso, o dano institucional já está consolidado.
Um legado que atravessa governos
As falcatruas atribuídas à gestão de Rodrigo Rollemberg não se resumem a números frios. Elas representam insegurança, medo e instabilidade para milhares de famílias que dependem do Iprev para sobreviver.
O caso se tornou um exemplo emblemático de como decisões políticas mal calculadas podem atravessar governos e comprometer o futuro de uma geração inteira de servidores públicos.
O episódio reforça um princípio fundamental da administração pública: previdência não é caixa do governo. Quando esse limite é rompido, o prejuízo não é apenas contábil é social, institucional e humano.
Fonte: Blog Olhar Digital /Metrópoles









