DESBRAVANDO OPINIÕES | Arruda e a política da sobrevivência: uma leitura científica do poder sem voto no Distrito Federal

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A movimentação recente de José Roberto Arruda, atualmente inelegível por decisão da Justiça Eleitoral, revela um padrão clássico descrito pela ciência política: a sobrevivência de elites políticas fora da arena eleitoral.

Impedido juridicamente de concorrer e desprovido de capital eleitoral mensurável, o ex-governador desloca sua atuação para o espaço informal da política, onde a influência se exerce sem mediação do voto.

Na teoria das elites, formulada por Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca, atores políticos afastados institucionalmente tendem a buscar novas formas de preservação de poder por meio de redes de relacionamento e articulações indiretas. Arruda se enquadra nesse modelo ao optar por uma estratégia de bastidor, caracterizada por contatos reservados, ausência de exposição pública e tentativa de interferência na configuração das candidaturas.

Esse comportamento é conceituado na literatura como poder relacional sem mandato, quando o ator político não disputa cargos, mas busca condicionar o resultado do jogo.

Trata-se de um mecanismo de veto informal: não se governa, mas se tenta impedir que outro governe.

Nesse contexto, o ex-governador tem buscado interlocução com setores tradicionalmente adversários, incluindo figuras ligadas ao campo progressista, como o ex-governador Rodrigo Rollemberg, quadros do Partido dos Trabalhadores e agentes políticos próximos ao ex-interventor Ricardo Cappelli.

Do ponto de vista analítico, não se trata de realinhamento ideológico, mas de um realinhamento tático negativo, no qual a convergência se dá não por projeto comum, mas pela identificação de um adversário prioritário.

Esse adversário é a vice-governadora Celina Leão, cuja pré-candidatura ao Palácio do Buriti apresenta crescimento consistente nas pesquisas de intenção de voto no Distrito Federal e no Entorno.

Sob a ótica da teoria da escolha racional.

Arruda atua para minimizar perdas futuras: reduzir a probabilidade de consolidação de um ator que ocupa o espaço político que ele próprio perdeu. A estratégia é reforçada pelo chamado custo reputacional. A inelegibilidade, associada a episódios amplamente conhecidos do eleitorado, impõe barreiras severas à atuação pública.

Assim, a política invisível torna-se o único canal disponível. Esse fenômeno foi descrito por Robert Dahl como exercício de poder sem accountability eleitoral: há influência, mas não há responsabilidade perante o eleitor.

A assimetria entre os dois modelos é estrutural.

Celina Leão opera no plano da legitimidade democrática: campanha pública, alianças visíveis e mobilização do eleitorado.

Arruda opera no plano da influência opaca: articulação reservada, comunicação indireta e tentativa de bloqueio político.

Não se trata apenas de divergência partidária, mas de natureza institucional distinta.

• Um está juridicamente habilitado.

• O outro está formalmente impedido.

• Um disputa poder pelo voto.

• O outro tenta condicioná-lo pela sombra.

Do ponto de vista sistêmico, o caso ilustra uma tensão recorrente na democracia brasileira: a permanência de atores inelegíveis tentando influenciar processos eleitorais por meios informais. Embora tal prática não seja tipificada como ilegal, ela tensiona o princípio da transparência política, pois desloca decisões relevantes do espaço público para arenas privadas de negociação.

Há ainda um elemento decisivo que a literatura sobre comportamento eleitoral aponta como estruturante: a memória política. Estudos de accountability indicam que eleitores tendem a punir lideranças associadas a crises institucionais, mesmo após longos períodos fora do poder. Isso explica por que Arruda enfrenta rejeição social persistente e incapacidade de reconstruir viabilidade eleitoral.

Sua atual movimentação, portanto, não configura projeto de governo, nem retorno político estruturado. Trata-se de um fenômeno de manutenção de relevância residual, típico de lideranças que perderam centralidade institucional, mas ainda dispõem de redes políticas.

Em termos científicos, o caso pode ser sintetizado da seguinte forma: não é estratégia de vitória, é estratégia de contenção; não é projeto de poder, é gestão da própria sobrevivência política.

Enquanto Celina Leão amplia sua legitimidade na arena pública, Arruda atua no campo da influência indireta. Um modelo se ancora no eleitor. O outro, na articulação.

“Qual foi a entrega pública de Arruda à população nos anos em que esteve fora da política institucional?”

Há registro de algum projeto social estruturado por ele para atender populações vulneráveis? Alguma iniciativa alimentar, mesmo emergencial sequer uma ação básica como distribuição de refeições, sopas ou caldos foi formalmente apresentada como política social ou projeto comunitário?

No campo da política pública, qualquer cidadão pode propor programas, mobilizar parcerias ou protocolar indicações junto ao Executivo e ao Legislativo. A ausência de iniciativas conhecidas nesse período levanta uma questão objetiva: houve produção social concreta ou apenas preservação de capital político pessoal?

Sua reaparente atuação concentra-se nos ciclos eleitorais, não na formulação continuada de soluções sociais.

Isso caracteriza um padrão típico de ativismo oportunista de elite política, descrito pela ciência política como comportamento voltado à retomada de cargo, e não à construção de política pública.

A dúvida é legítima e institucional:

Houve ação social verificável, ou apenas movimentação estratégica por poder?

Cabe ao eleitor observar. Cabe ao eleitor registrar. Cabe ao eleitor decidir. Desbravando Opiniões.

E a ciência política é clara: quando o voto deixa de ser o meio, o poder deixa de ser democrático.