O PSD no Distrito Federal atravessa a mais grave crise de sua história recente.
A chegada do ex-governador José Roberto Arruda à legenda, mesmo diante de sua inelegibilidade reconhecida por decisão unânime da 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), provocou um processo acelerado de esvaziamento político, debandada de quadros estratégicos e paralisia eleitoral às vésperas do pleito de 2026.
Até pouco tempo, o PSD-DF possuía dois deputados distritais em exercício e um ex-parlamentar com potencial competitivo. Hoje, a legenda se vê sem nomes fortes, sem nominata estruturada e sem projeto eleitoral viável tanto para a disputa majoritária quanto para as eleições proporcionais.
A crise se agravou após o presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, promover uma espécie de “intervenção branca” no diretório local ao conceder a Arruda protagonismo político e controle informal da sigla, com o objetivo de lançá-lo candidato ao Palácio do Buriti. Em troca, firmou-se um acordo interno para tentar eleger André Kubitschek, filho de Paulo Octávio, como deputado distrital.
Formalmente, Paulo Octávio segue como presidente do PSD-DF. Politicamente, porém, tornou-se figura decorativa. Nos bastidores, a definição é direta: reina, mas não governa. As decisões estratégicas passaram a orbitar em torno de Arruda, gerando resistência interna e afastando lideranças que não aceitaram atrelar seus projetos a um nome juridicamente inviável.
O resultado foi um esvaziamento imediato. Deputados distritais como Robério Negreiros e Jorge Vianna deixaram a legenda. O ex-distrital Cláudio Abrantes, atual secretário de Cultura, também se desfiliou. O PSD ficou com estrutura partidária, mas sem densidade eleitoral.
Do ponto de vista técnico, o cenário é ainda mais dramático. Para eleger um deputado federal em 2026, um partido precisará atingir aproximadamente 190 mil votos no Distrito Federal.
Para uma vaga na Câmara Legislativa, o piso gira em torno de 70 mil votos. Hoje, o PSD não possui nenhum nome que, isoladamente, se aproxime desses números.
André Kubitschek surge como principal aposta interna, mas carrega fragilidade eleitoral: na última eleição para deputado federal, obteve cerca de 21 mil votos. Além disso, seu posicionamento político permanece indefinido. Como secretário de Juventude do governo Ibaneis Rocha, terá de decidir se se alinha à vice-governadora Celina Leão, favorita nas pesquisas para a sucessão ao Buriti, ou se permanece vinculado a Arruda, cuja inelegibilidade produz insegurança jurídica e eleitoral.
É justamente nesse ponto que o contraste político se torna mais evidente. Entre Celina Leão e José Roberto Arruda, a diferença não é apenas de projeto eleitoral, mas de postura pública.
Enquanto Celina construiu trajetória ativa dentro do governo, com presença institucional, articulação política e participação direta na formulação e execução de políticas públicas, Arruda, fora do poder, limitou-se ao silêncio político e à ausência completa de iniciativas em favor da população.
Durante o período em que esteve fora do governo, Arruda não apresentou projetos sociais relevantes, não protocolou propostas legislativas, não articulou soluções junto ao atual governo e tampouco se mobilizou institucionalmente para responder às demandas do Distrito Federal.
A população, que ele afirma amar e defender, não foi destinatária de ações concretas. O engajamento reaparece apenas quando o cargo de governador volta ao horizonte.
Esse comportamento revela uma lógica de poder: o discurso social só existe quando há perspectiva de comando. Fora do governo, inexiste projeto público; dentro da disputa, reaparece a narrativa de preocupação popular.
O que se observa, portanto, é que o cargo parece mais importante que a população que se diz defender.
Quem governa pensando no povo atua com ou sem mandato, propõe políticas públicas, participa do debate institucional e constrói soluções permanentes. Quem só se movimenta quando vislumbra o poder revela que o projeto não é social é pessoal.
Nesse contexto, a candidatura de Arruda deixa de ser apenas um problema jurídico e passa a ser um problema político: expõe a ausência de compromisso contínuo com o interesse público.
A desorganização interna do PSD reflete esse impasse. Nem mesmo figuras tradicionais da legenda, como Paulo Octávio, Arruda e Luiz Pitiman, conseguiram montar uma nominata competitiva. O prazo para registro de candidaturas se aproxima restam poucos meses e o partido segue sem direção clara.
Circula nos bastidores a informação de que o advogado Lucas Kontoyanis teria sido chamado para tentar reorganizar a sigla. Paulo Octávio, entretanto, negou oficialmente a versão, reforçando a percepção de conflito interno e descoordenação estratégica.
O PSD-DF enfrenta, assim, uma dupla crise: política e jurídica. Falta-lhe projeto eleitoral, sobram disputas internas e pesa sobre a legenda a insegurança gerada pela aposta em um nome inelegível. Em um sistema que exige volume de votos, organização e alianças sólidas, o partido corre sério risco de atravessar 2026 como coadjuvante ou sair sem qualquer representação parlamentar.
No fim, a questão que se impõe não é apenas quem será candidato, mas qual é a real motivação do projeto político em curso. Governa-se para servir à população ou para atender ambições pessoais? A ausência de ações fora do poder deixa claro que, neste caso, o motor não é o interesse público é o interesse político.









