Com PCC e Comando Vermelho oficialmente classificados como organizações terroristas pelos Estados Unidos, governo Trump amplia instrumentos de sanção internacional. Marco Rubio, responsável pela designação, alcança 45,6% em pesquisa republicana e coloca o futuro das relações com o Brasil no centro do debate político.
Por Eduardo Magregor | Jornalismo Político
Washington/Brasília, 3 de novembro de 2026 — A política externa dos Estados Unidos atravessa uma transformação com consequências diretas para a América Latina. Sob a presidência de Donald Trump, o enfrentamento aos cartéis internacionais, ao financiamento de organizações criminosas e às estruturas transnacionais de narcotráfico passou a ocupar posição central na agenda de segurança nacional americana.
Para o Brasil, essa política deixou de ser apenas uma discussão diplomática.
Em uma decisão formalizada em junho de 2026, os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras, ampliando os mecanismos legais disponíveis para combater suas atividades e redes de financiamento.
A decisão foi assinada pelo secretário de Estado Marco Rubio, integrante do governo Trump e uma das figuras envolvidas na discussão sobre a sucessão presidencial republicana em 2028.
O recado institucional de Washington é objetivo: organizações criminosas transnacionais podem ser tratadas pelos Estados Unidos como ameaças à segurança nacional, sujeitas a sanções econômicas, restrições financeiras e consequências criminais.
DONALD TRUMP TRANSFORMA O COMBATE AOS CARTÉIS EM QUESTÃO DE SEGURANÇA NACIONAL
A mudança tem origem em uma das primeiras decisões do segundo mandato de Donald Trump.
Em 20 de janeiro de 2025, o presidente assinou a Ordem Executiva 14157, estabelecendo um procedimento para classificar determinados cartéis e organizações criminosas internacionais como grupos terroristas.
A iniciativa incorporou o enfrentamento dessas organizações à estratégia americana de segurança nacional, permitindo ao Departamento de Estado avaliar designações com efeitos econômicos, migratórios e jurídicos.
O governo americano argumenta que essas redes não representam apenas estruturas dedicadas ao tráfico de drogas, mas organizações capazes de exercer influência territorial, movimentar recursos internacionais e ameaçar instituições públicas.
A política tornou-se um dos pontos de divergência entre republicanos e democratas. Enquanto a administração Trump defende o uso ampliado dos instrumentos de contraterrorismo contra o crime organizado, críticos questionam os limites jurídicos dessas designações e os possíveis impactos sobre a cooperação internacional.
A controvérsia se intensificou com a inclusão de organizações brasileiras nas listas americanas.
MARCO RUBIO ASSINA DECISÃO HISTÓRICA CONTRA PCC E COMANDO VERMELHO
Em 28 de maio de 2026, Marco Rubio anunciou a designação do PCC e do Comando Vermelho como Terroristas Globais Especialmente Designados e comunicou que ambos passariam também à categoria de Organizações Terroristas Estrangeiras.
A segunda classificação entrou em vigor em 5 de junho, após publicação no Federal Register, o diário oficial americano.
A medida produziu consequências concretas.
Sob o regime de sanções dos Estados Unidos, ativos sujeitos à jurisdição americana podem ser bloqueados, determinadas transações financeiras são proibidas e pessoas ou empresas que prestem apoio material às organizações podem enfrentar consequências legais, conforme as circunstâncias e a legislação aplicável.
A decisão também criou novas exigências de atenção para instituições financeiras e operadores econômicos com exposição a redes vinculadas às facções.
Para o governo Trump, interromper o fluxo internacional de dinheiro constitui parte essencial da estratégia contra o narcotráfico.
A atuação não se restringiu à publicação das designações.
Em 1º de julho de 2026, o Departamento do Tesouro americano anunciou sanções contra duas pessoas físicas brasileiras, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa por supostas ligações com uma rede de lavagem de recursos associados ao PCC.
A ofensiva, portanto, não ficou apenas no discurso: já resultou em medidas administrativas e financeiras contra organizações e pessoas identificadas pelas autoridades americanas.
O QUE O BRASIL PRECISA OBSERVAR
A política de Trump e Rubio criou uma nova variável nas relações diplomáticas entre Brasília e Washington.
O governo brasileiro manifestou oposição à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pela legislação americana.
A administração brasileira argumenta que decisões unilaterais podem comprometer a cooperação policial, produzir riscos para instituições financeiras e provocar conflitos relacionados à soberania nacional.
Em maio, o governo Lula afirmou que estava disposto a colaborar internacionalmente contra o crime organizado, mas rejeitou medidas que considerasse uma ameaça à soberania e à economia brasileiras.
A discussão envolve questões jurídicas importantes.
A designação americana não transforma automaticamente todos os integrantes dessas organizações em condenados por terrorismo segundo a legislação brasileira. Também não autoriza, por si só, operações militares americanas dentro do território nacional.
Entretanto, os instrumentos de sanção dos Estados Unidos podem atingir redes financeiras, indivíduos e empresas submetidos à jurisdição americana ou vinculados a operações alcançadas por suas normas.
A questão central deixa de ser apenas a classificação jurídica das facções e passa a envolver o alcance internacional de suas estruturas econômicas.
CORRUPÇÃO E LAVAGEM DE DINHEIRO TAMBÉM ENTRAM NO DEBATE
Outra dimensão da política americana envolve o combate à corrupção e à movimentação internacional de recursos ilícitos.
Os Estados Unidos possuem instrumentos legais para aplicar sanções a estrangeiros envolvidos em determinados casos de corrupção significativa e graves violações de direitos humanos, incluindo mecanismos associados ao regime Global Magnitsky.
Esses instrumentos são distintos das designações terroristas, embora possam integrar uma estratégia mais ampla de aplicação de sanções.
No contexto brasileiro, a relação entre corrupção, financiamento criminoso e organizações transnacionais exige investigações individualizadas e provas que sustentem medidas administrativas ou processos judiciais.
Não é possível concluir que políticos, partidos ou instituições brasileiras estejam envolvidos com organizações terroristas apenas por divergirem das decisões do governo americano.
O que se pode afirmar é que a atual estrutura de sanções oferece a Washington mecanismos para investigar e restringir operações financeiras relacionadas a pessoas e organizações formalmente identificadas pelas autoridades competentes.
MARCO RUBIO CHEGA A 45,6% E MOVIMENTA A SUCESSÃO DE TRUMP
Enquanto participa da formulação da política externa americana, Rubio aparece em uma disputa política que se projeta para 2028.
Pesquisa da AtlasIntel, divulgada em 1º de novembro, registrou 45,6% das preferências por Marco Rubio em uma simulação das primárias republicanas.
O vice-presidente J.D. Vance aparece com 32,9%, seguido por Ron DeSantis, com 4,5%, e Tucker Carlson, com 2,7%.
O levantamento ouviu 3.566 adultos nos Estados Unidos, entre 28 de outubro e 1º de novembro. Os percentuais da disputa republicana correspondem à parcela de entrevistados identificados com o partido.
Embora Rubio tenha registrado vantagem nesse levantamento específico, outras pesquisas continuam apresentando Vance à frente. A sucessão presidencial permanece indefinida, sem uma indicação oficial de Trump.
Ainda assim, o resultado revela que a disputa por espaço dentro do Partido Republicano envolve integrantes de destaque da atual administração.
Rubio ocupa o Departamento de Estado, participa de decisões internacionais e mantém uma agenda pública vinculada à segurança hemisférica.
Vance, por sua vez, exerce a vice-presidência e possui atribuições institucionais próprias dentro do governo.
A escolha do candidato republicano de 2028 dependerá das primárias, das articulações partidárias e das decisões dos eleitores.
REPUBLICANOS E DEMOCRATAS DISPUTAM O FUTURO DO CONGRESSO
As eleições legislativas americanas de 3 de novembro representam outro capítulo dessa disputa.
Os republicanos procuram preservar sua capacidade de sustentar a agenda do governo Trump no Congresso, enquanto os democratas disputam cadeiras para ampliar sua influência legislativa e os instrumentos de fiscalização do Executivo.
O resultado determinará as condições políticas em que serão discutidas propostas relacionadas à imigração, segurança, economia, relações internacionais e financiamento das agências federais.
A Flórida permanece especialmente relevante nesse cenário, tanto por sua trajetória eleitoral recente quanto por sua relação política com Trump e Rubio.
Mas os mapas e as projeções divulgados nas redes sociais não substituem resultados oficiais.
Até o momento desta atualização, não havia confirmação suficiente para apresentar os números de 245 republicanos na Câmara e 54 no Senado, que circulam em publicações, como composição definitiva do Congresso eleito em 2026.
Além disso, uma maioria parlamentar republicana não permitiria eleger Marco Rubio presidente antes de 2028. A sucessão presidencial está submetida às regras da Constituição americana.
SE RUBIO CHEGAR À CASA BRANCA, O QUE PODERÁ MUDAR NAS RELAÇÕES COM O BRASIL?
Uma eventual candidatura e vitória de Marco Rubio em 2028 colocariam sua atuação atual como secretário de Estado sob nova perspectiva.
As decisões adotadas contra o PCC e o Comando Vermelho documentam sua participação na aplicação da política de segurança internacional do governo Trump.
Sua trajetória em temas relacionados a Cuba, Venezuela, China e crime transnacional também oferece elementos para examinar suas posições de política externa.
Isso não significa que todas as decisões do atual governo seriam automaticamente reproduzidas em uma eventual presidência Rubio.
A direção futura dependeria de compromissos eleitorais, circunstâncias internacionais, decisões legislativas e prioridades de governo.
Para o Brasil, o desafio institucional é concreto e já existe: manter a cooperação contra o crime organizado, proteger os interesses econômicos nacionais, assegurar o respeito à soberania e compreender os efeitos das sanções americanas.
Não se trata de afirmar que o Brasil deva temer um presidente americano. Trata-se de reconhecer que decisões tomadas em Washington já alcançam organizações criminosas brasileiras e podem ter repercussões financeiras, jurídicas e diplomáticas dentro e fora do país.
A DISPUTA PELO PODER AMERICANO ULTRAPASSA AS FRONTEIRAS DOS ESTADOS UNIDOS
Donald Trump colocou a classificação internacional de cartéis entre as prioridades de sua administração. Marco Rubio participou da implementação dessa política e assinou a designação de duas facções brasileiras. O Departamento do Tesouro passou a aplicar sanções contra redes financeiras apontadas como associadas ao crime organizado.
Esses são acontecimentos documentados que ajudam a dimensionar a nova realidade das relações entre os dois países.
Paralelamente, a discussão sobre a sucessão republicana de 2028 ganha espaço e coloca Rubio entre os nomes examinados pelo eleitorado do partido.
Os democratas continuam disputando o controle legislativo e questionando aspectos da agenda presidencial, enquanto os republicanos buscam sustentação política para as medidas do Executivo.
O cenário combina três disputas diferentes: a composição do Congresso, a estratégia americana de segurança internacional e a escolha do sucessor político de Trump.
Para Brasília, a mensagem mais importante não está nas previsões eleitorais, mas nas decisões já tomadas. As medidas contra o PCC e o Comando Vermelho mostram que a política americana de combate às organizações criminosas transnacionais passou a produzir efeitos diretos sobre grupos brasileiros.
Independentemente de quem vença a disputa presidencial americana em 2028, o debate sobre narcotráfico, terrorismo, corrupção, soberania e cooperação internacional permanecerá entre os temas relevantes da relação entre Brasil e Estados Unidos.
E essa discussão já começou muito antes da próxima eleição presidencial americana.
Por Eduardo Magregor | Jornalismo Político
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Fontes: Casa Branca — Ordem Executiva 14157, de janeiro de 2025; Federal Register — designação do PCC e Comando Vermelho, de junho de 2026; Departamento do Tesouro e OFAC — sanções de junho e julho de 2026; pesquisa AtlasIntel, divulgada em novembro de 2026; Reuters e Agência Brasil — manifestações do governo brasileiro sobre as designações.









